Wednesday, June 20, 2007

começo do fim de noite


Começo do fim de noite

I

O telejornal alardeou:
“Homen é linchado por engano”
Meus passos calam e preocupam-se
Estancam
E absorvo com um terror sobrenatural
A cena
O caos fictício toma corpo
Barbárie
Não é mais uma suposição pro futuro
É uma realidade do presente.
A rua se estende à frente e contra min
Carros, motos e motores disparam suas luzes.
Mais alguns passos
Mais um pensamento torto
Um querer demasiado ambicioso
Pois me acostumei a sonhar em grandes escalas.

II

A mesa cheia
, digo, as mesas...
Pois não são poucas, o bar pulsa como um ser,
Tem vida, é quase um ecossistema,
Um bioma,
Um habitat de sons, ações, olhares, expressões...
A musica se mistura com o vinho
(que optamos por falta de poder aquisitivo...)
Vinho barato, musica barata
Uma barata circunda o bar
Corre no asfalto.
Tem medo?
...Some da vista e adentra o bueiro
Não sei.

III

Durante à tarde já era anunciado
O vento morno
Calmo
Mórbido
Anunciava.
Para alguns, alguns goles é o bastante
Para outros nunca é o bastante.
Gotas tocam nossas cabeças
-Não arredo o pe daqui!
E chove
Todos, ou quase, arredam.
Os que ficam saboreiam.
Estardalhaço
Macaxeira Sal
Fumaça Cigarro
Política
Sexo
Sorrisos Choros
Amores
Mentiras Verdades
Medo Coragem
Tudo adentra o universo da mesa.

IV

Parafrasear o que?
Explicar? Pra que?
Basta um gesto
Um olhar ou aquele sorriso escroto
Bastam.
As mesmas ruas que nos ameaçavam agora acolhem
Tão tímidas tão nuas
Silêncio.
Uma frase solta no ar
Segredo popular para uns
Para outros um ultraje
É tarde
Em outras noites seria cedo
Mas estamos cansados e confusos
Contundidos contidos
Perdidos
E lisos.

V

Um novo universo crio
Quando no quarto me vejo deitado na rede
Tento sonhar ainda acordado
E me lembro do corpo que queria ao meu lado
Vejo as formas que o lençol desenha
A respiração calma
Quase parada
Lenta
Sou meus sonhos desmedidos
O vento mais uma vez bate-me a fronte
Dessa vez não diz nada.
Refresca.
Os minutos não se arrastam
Voam
Os olhos pesam e uma leve tontura circunda a cabeça
Álcool faz essas coisas.
As pupilas vão assumindo uma outra forma
E as pálpebras pesam
Já não controle minha mente
Adentro o sonhar.

VI

Uma tempestade se precipita
As ao caírem pesam
Quase machucam
Parecem cair como fardos
Como culpas.
Danço com uma deusa

Kauket?

Não há palavras
Só o som da natureza ao meu redor.
Sua mão é de bruxa
Tem uma maciez mágica,
Mística.
Seus olhos de vampira
São um equilíbrio de sedução e mistério.
De repente a tempestade se esvai
A tarde surge
Não há sol
É uma tarde cinza e de vento morno
Tal vendo nos desnuda.
Estamos sentados numa grama
Num tapete verde
É o deleite da solidão contemplando a dor.

VII

Perfeição
É a simplicidade.
O momento em que nos tornamos deuses
Não por virtudes
Mas por nossos pecados
Já não estou só
É precisso sonhar!


Ton
Kuk
Melquetrefe milindroso
Malandro lírico







Saturday, June 09, 2007


A tarde com o seu sol torrencial foge
E a noite se aproxima sorrateiramente...
O gato sobe o muro e sobre o muro
Observa a rua
Parece uma estátua negra
Insatisfeita e fora do seu lugar
Intimando-nos com o seu olhar
Os postes se acendem
As vidas se apagam
Somos fogo ardendo
Sob o sereno noturno.

Correm crianças alegres
Correm e gritam
E nas calçadas as mães conversam
Pela rua com passos lentos
Avançam
Os despropositados
E as engrenagens rangem.

Em algum lugar cai uma pétala
Vermelha
No chão
No vão
Em vão
E do peito de um qualquer
Com um gosto amargo
Se desfaz um suspiro, um pensamento perdido.
Todos os quadrados, triângulos
E diversos polígonos
Se encaixam de alguma forma
De alguma forma
Acham um lugar
Seu lugar
Veja os muros e os tijolos
As calçadas e os padrões
Os diversos objetos inúteis dispersos por sua casa
Tudo
Tudo
Tem o seu lugar.

Mas além do horizonte
Além do horizonte físico
Do horizonte do pensar
E do compreender
Muito além
Nasce molhado de sangue
Moldado com suor
Nasce sem uma forma geométrica indefinida...

Não há encaixe neste mundo


Pra ele, não!

Pétalas vermelhas no chão
Gotículas de sangue espesso
Morte e vida se encontram.
Lá fora um ato é a continuidade
O principio e fim da circunferência
Aqui dentro tudo é vazio

Oco

Pobre criança
Que ombro te acolhera?
Nunca haverá sossego na tua vida
Como as pétalas um dia cairás
E como o gato e a noite
Tua alma será negra
A vida será um suplício
Uma dúvida eterna
Será uma noite fria onde tudo esta morto.

Solitária no céu a lua reina
Os olhos cerrados
Lacrimejam a dor contida
Amores perdidos
Dinheiro mais dinheiro

Inspira o ar amargo das fábricas e dos carros
Devolve teu olhar vasto e vago
Amor
Odor
Dor
Mais uma peça perdida
Com a alma arranhada
Olhando o céu
Perdido na imensidão dos pesares.