Friday, March 07, 2008

A 3ª pele





Ele me ligou, finalmente e como havia não apenas adivinhado, mas posto em jogo todas a estratégias visíveis e invisíveis que o conduzissem a isso: Eram meus fios e meus dedos que afetavam seu débil livre arbítrio quando me sussurrava pelo telefone seus convites. E como me espantei, fingida, como minha língua foi pudorada, como a minha indiferença esbofeteou seus galanteios! Apenas uns olhares na semana passada quando o encontrei, aparentemente por acidente, junto com sua noivinha na Sorveteria, apenas uns rostos híbridos que costurei na hora, de cor confusa, entre um interesse acima do comum e uma frieza distante. Fui amiga de infância de sua namorada, a Maria, mas como acontece com todas as amigas de infância, o habitual caminho da amizade se cobriu de um matagal maior que a disposição e o desejo de desbravá-lo. Quando fui morar no bairro vizinho, nos tornamos estranhos; se passássemos uma pela outra fazíamos um comprimento monossilábico, ou fingíamos uma distração e nos desviávamos dessa delicadeza chata. Beijos nas faces, um sorriso de alegria notadamente artificial, aquelas perguntas cansativas pela saúde da mãe e dos irmãos: além de não poder executar nossa habitual estratégia pra manter o matagal como está, ali, no compartimentozinho da Sorveteria, o que soaria deselegante, eu tinha outras coisas em mente. Trocamos os telefones, repeti 3 vezes pra ter certeza de que ele aprenderia de cor, musiquei a pronuncia dos números pra amolecer mais sua memória. Mas fixei-o apenas com minha visão periférica, me mantive glacial, tão glacial quanto o sunday que eu saboreava. Ele me ligou. Ousado ele!, como esperei. Parece que amanhã estará sozinho em casa, fez uma proposta de indecência desfaçada, que eu aparecesse lá às 18:00, falou de um vinho, música. Não confirmei, claro que vou! Mas dessa vez será apenas a 2ª pele, claro; ainda é cedo, o desejo dele ainda é pequeno, o que torna tudo sem muita graça. Dependendo de como ele souber explorar a 2ª pele, quem sabe a 3ª fique pra semana que vem! Hoje apenas beijos e abraços, nada de precipitações!...
Quarta-feira, 28/01/07

Ana digitou o último ponto da reticência com um gesto brusco de seu indicador e um sorriso de satisfação. Estava mais satisfeita com a ótima página de seu blog do que com a destreza com que tratava seu novo pretendente.
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- Amor, mas o combinado é "todas as quintas e sábados..."
- Eu sei, querida, mas você sabe que não precisamos seguir tudo a risca, o Daniel, aquele meu amigo quer que eu o ajude num trabalho sobre Espinosa, ele tem que apresentar um seminário amanhã, aí já viu...
- Mas isso é problema dele!... Será que nunca vai aprender a dizer não?...
- A gente se vê na sexta, querida, a gente não precisa seguir tudo a risc...
- Precisamos sim! Sexta é dia de salão de beleza, esqueceu?, não dá pra gente se vê!...
- Amor!... Então até sábado, beijos!

E Álvaro desligou fingindo um mal-humor provocado pela discussão, desligou o celular para evitar uma nova ligação de Maria depois de olhar as horas, sorriu maliciosamente frente ao espelho, o rosto coberto pelo creme de barbear, faltava apenas alguns minutos para a chegada de Ana, continuou a fazer a barba cantarolando.

A campainha toca levantando um festim de latidos, o portão de alumínio trovoava sob as patas de algum monstro colossal. E Álvaro fez uma careta como se sentisse que havia esquecido algo. Abriu o portão um pouquinho empurrando-o contra focinhos e patas, isso depois de como um louco, trêmulo de ansiedade, procurar os enforcadores, as correias e as correntes, não achou. O rosto de Ana estava mais branco do que era, os olhos gritantes, as mãos na boca. "Calma eles não mordem, são mansinhos, mansinhos..." E Ana calada, pálida. "De jeito nenhum é que eu entro aí!..." "Mas, são bem mansinhos, a Maria..." E sentiu um incômodo ao pronunciar o nome da noiva naquela hora. " A Maria brinca muito com eles..." Disse isso como um possuído, como se só isso bastasse para convencê-la da docilidade dos bichos, os cães latiam estridentemente, ele gritava nãos, empurrava os focinhos nervosos que se espremiam na brecha que formava o portão e o muro; Álvaro também a olhava com um só olho por aquele horizonte vertical, o vestido cinza caia sedosamente sobre as curvas do corpo e deixava ao léu dos olhos um par robusto de pernas. E o perfume. Todos esses animais agora farejavam esse cheiro estranho, os latidos urravam e Ana dava passos para trás, são mansinhos, ele dizia entre gritos de nãos, "...esse é o Gogh, essa é Frida..." disse como se apenas saber o nome dos cães pudesse dar alguma familiaridade, estava apavorado com a idéia de que sua noite seria frustrada pelos animais.

"... só um pouquinho." Fechou o portão e gritou os nomes que acabara de pronunciar, os latidos cessaram, abriu o portão, Ana olhou de um lado para o outro e não viu mais os rotwailles. Álvaro estava embriagado com a euforia misturada a iminente frustração, trancara Gogh e Frida em seu quarto pensando, " Se fizerem sujeira aqui, ninguém verá", ainda procurou mais uma vez os enforcadores e as correntes, droga! "Onde meu pai pôs essa..." e correu pensando em Ana que já esperava há um bom tempo.

Ela entrou, os dois tinham a testa reluzente de transpiração. Ela procurava se aprumar, passava as mãos no encaracolado dos cabelos como se isso fosse trazer o silêncio e a quietude interna que buscava, queria achar a posição das peças de seu tabuleiro interior, parecia que aquele veloz incidente fora um tufão em todas as suas disposições, embaralhando seus instintos, deixando-a tensa, insegura, pensou até em dar meia volta e deixar para outro dia o que planejava, mas logo a retórica carinhosa e libidinosa de Álvaro, totalmente recomposta, pôs a massagear seus ânimos. Apesar de ainda não ter achado o chão da serenidade e um repouso onde executaria suas artimanhas, ia se deixando levar. Logo Álvaro apareceu com uma garrafa varada por um saca-rolhas na sala, onde se sentaram num carpete cheio de almofadas e uma pequena mesa no centro. E as taças enrubesceram os lábios.

Estavam ainda na terceira taça, e falavam algo sobre Henry Miller, Álvaro fez alguns breves elogios sinceros ao bom gosto de Ana, que parecia ter um espírito refinado, além de um rosto inquietante; tinha formas exóticas que faziam os olhos oscilarem e deslizarem para algo como um aura anexa, não tinha uma beleza assim tão evidente, o nariz era um tanto aquilino, o queixo quadrado, as maçãs do rosto salientes, o rosto parecia mesmo uma arquitetura cheia de acústica e ecos... Estava a falar algo de Henry Miller quando o súbito beijo de Álvaro salpicou-lhe a boca rubra, enchendo Ana de surpresa e alívio, como se esse beijo fosse uma premonição que tardava em se cumprir, agora ela se realizava com toda a sua novidade sinestésica, que é sempre surpreendente.

O vinho? O Imprevisível que enfia o seu focinho nas brechas dos planos?... Ana entregava seu tabuleiro para que o Acaso brincasse com as peças, e suas disposições, todas sorridentes, saltavam na decisão subterrânea, num túnel invadido por torrentes que não tinha previsto, a 2ª pele caia ao chão junto com o soutien, que já se arrastava no carpete manchado de púrpura; os seios pálidos e rígidos se tingem de saliva, os mamilos protuberam sob dedos ásperos e movediços; eretos e como dois polvos, numa dança de tentáculos e suspiros, já a calcinha cai e se emaranha nos pés, que se arrastam em transe. Não era a primeira vez que exatamente assim acontecia a Álvaro e a repetição o deixava ainda mais inflamado, era flutuando que deslizava pelo chão. A mão de palma para cima e dedos pianistas entre um par robusto de pernas, entre coxas úmidas; era um balão de vôo horizontal que tocava o solo apenas distraidamente, apenas o beijando para mover-se para os lados, beijando-o com leveza, sem pressa, saboreando devagar a volúpia dos movimentos, para os lados, indo sem ir, indo sem chegar, o ir em sensações tão circulares que se esquece de estar indo... para os lados, para o lado...: a porta se abre e cai o peso de uma quimera cheia de mãos e rugidos...

- Não!... Não! ... Não!... Ana! Não!... Gogh!... Frida!...

Agora o quarto inteiro está rubro, uma baita sujeira, um expressionismo esquisito se alastra na cerâmica, os rotwailles, daltônicos que são, não podem saborear a exuberância do contraste dessa palidez tão reluzente com esse rubro tão escarlate.

Álvaro não poderá ocultar essa sujeira surreal de seu pai, (tanto que ele dizia que não queria os cães dentro de casa!) nem de Maria...

Os cães se banquetearam com o além da 3ª pele de Ana.

All Duarte

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