
Sentia pontadas do lado direito, e com uma cara espremida apertava com uma das mãos a barriga, desejava apertar com as duas, mas a outra estava com a agulha do soro. Quando...
- Bom dia! - um rosto pálido e bonito lhe sorria, mas estava coberto com um hábito de freira. Arregalou os olhos num susto, primeiro pelo rosto, depois: porra! Uma freira!? Uma freira?!...
- Bom dia!
- Somos da paróquia aqui do lado do Hospital, e estamos muito interessadas em trazer o bem estar e o sossego que nosso Pai Celeste deseja para todos, há algo que possamos fazer por você?
- Não, Irmã, nada que você possa fazer por mim não... - Disse isso virando o rosto, chega dava náusea ver aquele rosto empanado daquele jeito. Porra!, freira é coisa de baranga ou velhota, mas essa aí, Deus meu!...
- Qual é o seu nome?
- Ora, não te interessa, vai procurar outro doentinho, vai! - continuava com o rosto virado pro lado esquerdo.
- Não seja tão malcriado, rapaz! Não podemos nem conversar um pouco? - Disse sorrindo e sentando na cadeira ao lado da cama.
- Não temos muito em comum, Irmã, e... tô com sono... por favor...
- Sua ficha diz que você está com suspeita de câncer no estômago, eu sinto muito... Seus parentes vêm visitar você muitas vezes?...
- Olha aqui, Irmã, eu não quero conversa...
- Fale um pouco de você...
- Ah quer ouvir sobre mim é?... Pois bem... vou te contar tudinho... quero ver se ela terá estômago pra ouvir, aposto que vai gritar comigo no meio de meu discurso, me acusar de blasfemo e tudo... - Agora ele olhava a Freira nos olhos com um sorrisinho sarcástico.
Costumo acordar cedinho todo dia, pelas cinco sempre, e gosto de dar umas voltas pelo bairro; sabe gosto da frescura da manhã, isso desde menino. Acordo e saio sem rumo, as ruas ainda vazias são aconchegantes, os comércios fechados, as portas também, sinto-me quase o único habitante do planeta. Naquele dia acordei, e como sempre calcei meus tênis velhos e sujos pra perambular por aí. Já ia longe, ando rápido sabe, pelos desertos de asfalto, como sempre, respirando fundo, sentindo o refrescante do ar matinal, sem porra... desculpe, Irmã, sem porra nenhuma na cabeça senão aquela sensação boa de existir. De repente sinto um roncado doloroso na barriga, lembrei da espelunca de restaurante em que jantei, lembrei na hora, foi aquele lixo que azaralhou com meu estômago, tratei logo de voltar pra casa, pro banheiro, apressei o passo e dava umas corridinhas, tinha que chegar logo, mas não deu, os toletes começaram a brotar do cu, desculpe Irmã, do ânus, pior ainda, não estavam duros, como já esperava. Tive que andar com a cueca cheia daquela pasta quente, sim, também não estava aquela água amarelada não, sentia como se fosse glacê, só que morno. E quando eu andava, sentia roçar a bunda na pasta quente, quentinha, de repente, senti uma sensação... boa, boa mesmo, sei lá por que! Quando cheguei em casa, acredite, tava de pau duro, descup.. ah, Irmã, você não nasceu freira!, tava excitado, quando tirei a cueca, vi o barro mole e... sabe que não fedia muito! Tomei um banho e bati uma, em quanto batia, percebi, sim, eu tinha que aceitar aquilo que era meu desejo, tinha que aceitar, apesar de um tanto estranho, já tinha ouvido falar desse lance de cropofilia e tal, mas, sei lá, aquilo parecia diferente. No outro dia: o de costume. E senti uma vontade enorme de sentir aquela bosta de novo na bunda enquanto andava, não, eu não sou viado, sei nem como é que alguém consegue achar beleza num corpo de macho, mas, aquela bosta!... Jantei de novo na mesma espelunca. Na manhã seguinte: a mesma coisa. A bosta nem tão dura, nem tão mole apareceu, quentinha, entre as nádegas, acredite tive um orgasmo ali mesmo enquanto andava, tinha um velho sem camisa e de barba branca capinando um terreiro que me viu quando revirei os olhos e encostei no muro, correu pra me socorrer, mas logo me recompus, não queria que ele sentisse o cheiro de merda, a minha merda.
Virou costume: jantar na espelunca, gozar cagado e andando nas ruas desertas de cinco horas. Mas, uma semana depois, não era a mesma coisa, já não conseguia gozar quando sentia o quentinho pastoso na bunda, tinha que meter a mão na calça e dar uma balançadazinha no pau, era perigoso, alguém poderia ver apesar de cuidar de me esconder num poste ou parede qualquer. Mas a Vigilância Sanitária apareceu lá na espelunca, e ela teve de fechar de vez, não se sabe se foi por que o Gordo dono negou a propina ou se era mesmo a manada de ratos que eles criavam lá. Acabou-se minha diarréia fácil. Comecei a tomar purgantes, mas parece que não era a mesma coisa, não tinha o mesmo efeito, a bosta não saia tão afrodisíaca assim, tinha uma consistência diferente, cheiro diferente, saia as vezes mais dura ou mais mole, as vezes não saia pelas cinco, era um saco, ficar de diarréia sem tesão é um saco! Começava a perder o pique da coisa.
Então comecei a experimentar outras coisas, outras receitas, o mundo da merda se abria pra mim. Passei a comer coisas do lixo em busca da merda ideal, da merda orgásmica. Passei a explorar outros modos de prazer, tipo comer minha bosta. Tudo isso eu fazia sozinho, em minha casa, jamais me passou pela cabeça envolver uma mulher nesse assunto, saia com mulheres, e gostava, como sempre; não tinha sentido misturar a merda nisso. Um corpo de mulher fedendo e sujo de bosta deve ser detestável. Esse negócio da merda era algo privado, só tinha brilho assim, se não houvesse olhos perto de mim, sem ter que me importar com prazeres alheios, era uma coisa do meu mundo entende, meu B-612.
Mas o lance de comer a bosta, acho, ou comer lixo, começou a me encher de dores terríveis, febre, tava amarelo como uma banana, tinha vez que não conseguia nem sair da cama, era uma agonia pra meter alguma coisa na goela, fiquei magro feito uma vara, inda assim, cada vez mais progredia e sofisticava minha busca pelo prazer fecal. Sabe que, nunca fui grande pensador, era ótimo em biologia no colégio, mas nada especial; mas comecei a elaborar teorias interessantes; o homem veio do barro, você já deve ter lido no Gênesis, o corpo humano tem quase os mesmos minerais da argila; talvez a merda revolva uma reminiscência gravada no inconsciente, um vestígio de quando éramos uma coisa só com o cosmo. Talvez a merda, sua aparência, seu cheiro, desperte nosso corpo para um estado místico, um transe profético, sim como nas antigas pitonisas gregas ou como nos profetas do velho testamento. Acho que a humanidade seria melhor se não escondêssemos tanto a merda, se não tivéssemos vergonha dela, você sabe, tá na tv, política, violência, criminalidade; também você sabe o quanto de nojo e pudor sentimos em relação a merda, são esgotos, são os valores, nossa linguagem tudo está a favor da desmerdização do mundo, da pejoração e danação da merda. O inferno é a merda. E talvez ela nos revele nosso lado inexplorado, séculos de história, civilização, tudo isso soterrou nossa ligação cósmica com a merda e seus poderes. Foi quando comecei a ter sonhos incríveis pelo poder da merda, que entendi o universo num tolete de bosta. Pense nisso, Irmã! Vocês das religiões insistindo tanto no lance de Deus e talvez a grande salvação seja a merda. Sabe, penso até que existem pistas na nossa cultura, atos falhos que evidenciam que talvez eu esteja certo. Você deve sacar bem de escatologia bíblica, apocalipse e tal, pois bem, olha, isso não é coincidência: escatologia, a tua doutrina das últimas coisas é também o que se relaciona com o mundo da bosta, sacou?, tá nas nossas fuças e nós não entendemos, a merda é o futuro, o próximo salto na evolução das espécies, o Homo fecus está próximo!... (olhos umedecidos)
Um dia simplesmente apaguei depois de uma de minhas visões, não tenho como me lembrar como. Uma de minhas namoradas me encontrou nu em minha banheira, estava cheia de merda. Acho que tô próximo da morte, como todos os profetas, morrerei jovem, com meus 35 anos.
A Freira, com olhares arregalados, se levantou em silêncio e foi embora, ouviu-se uma zoada de esguicho, parece que vomitou lá fora. Ele caiu na gargalhada, ria, e espremia o rosto, ria e apertava a barriga do lado direito.
O doente do leito ao lado, um moço cadavérico, com a bata manchada, ergueu-se de um pulo, atrapalhando a gargalhada com um susto, e gritou com as mãos e os olhos para cima:
- GLÓRIA À MERDA!
Al Duarte, 01/2008
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